Meu Portfólio é de Vida. O que aprendi fora do diploma
Nos últimos meses, venho consolidando uma transição profunda na minha trajetória: assumir, sem pudor e sem desculpas, minha identidade como autora e pensadora autodidata — alguém que construiu seu conhecimento em caminhos não lineares, por necessidade vital, curiosidade insistente e teimosia existencial.
Esse movimento ganhou impulso agora que decidi candidatar-me à pós-graduação em Teoria Crítica da Sociedade, no ICL. Para isso, precisei revisitar minha própria história, reordenar meus saberes dispersos e encarar uma questão incômoda: por que tantos conhecimentos legítimos permanecem invisíveis apenas porque não estão moldados num diploma?
Percebi então que meu percurso não cabe nos critérios tradicionais — e que isso não é um defeito, mas um sintoma da época. Vivemos um tempo em que a aparência de legitimidade pesa mais do que a substância, como já alertava Maquiavel: “Todos veem o que pareces ser; poucos sentem o que és.”
E é claro que essa aparência se vê principalmente na educação, onde a credencial frequentemente supera o valor do pensamento vivo.
Aos 45 anos, entendi que diplomas podem ser valiosos, sim — mas também podem se tornar instrumentos de domesticação. Muitas vezes validam trajetórias dóceis, previsíveis, burocraticamente aceitas, enquanto deslegitimam percursos de lucidez, resiliência e reinvenção.
Nesse ponto eis que descubro o fenômeno STAR — Skilled Through Alternative Routes. Não como mais um jargão de marketing, mas como diagnóstico de uma realidade: pessoas que adquiriram saber por rotas alternativas — trabalho, migração, maternidade, sobrevivência, serviço comunitário, prática diária, curiosidade disciplinada — e que ainda assim esbarram num teto invisível, o famigerado paper ceiling.
Nos Estados Unidos, 50% da força de trabalho é composta por pessoas assim. Metade de um país inteiro é, portanto, competente — mas invisibilizada. E eu me reconheço aí.
Por isso decidi publicar este Portfólio de Vida aqui, no meu espaço-matriz, como um gesto de honestidade e como um convite: repensar juntos o que significa saber, aprender e contribuir em um mundo em crise permanente.
1. A trajetória prossegue, mesmo quando a vida se impõe
O saber não desaparece porque perdeu a oficialização do diploma; ele florece por outras vias. Pra quem Aprender é quase uma compulsão (Eduardo Moreira que o diga!), livros, cursos, podcasts, documentários são refúgio e bússola… Em qualquer fase da vida!
Aos 17 anos egressa do ensino médio, não prestei vestibular pra universidade por razões óbvias: meu preparo em escola pública era pífio, e eu queria prestar Direito, a segunda nota média mais alta de todos os cursos! Então fui tentar minha primeira experiência de trabalho no Banco do Brasil. Lá descobri a importancia da microeconomia real e do desenvolvimento pessoal – eu até então apreciadora da ficção literária de Machado de Assis (Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba,) , Aluísio Azevedo (O Cortiço), José de alencar(Iracema) Camões (Os Lusíadas) e afins – mergulhei com gosto nos livros de Roberto Shinyashiki, Lair Ribeiro, Stephan Covey e titulos inesquecíveis como “A história da Riqueza do Homem” e “Pollyanna”.
Aos 21 anos e após 2 de estudo intensivo, minha nota permitiu ingressar para Turismo na UNICAP. No 3º semestre, precisei interromper por não poder arcar com a emnsalidade. Foi quando em mais um vestibular, alcansei nota para entrar na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Estudei como nunca, dei aulas de inglês, trabalhei com venda de carros, depois de importados. Engravidei, casei e passei no concurso para o maior banco pùblico do país: Caixa Econômica Federal. Nesta fase aprofundei minha consciência sobre Política Pública & responsabilidade social, assim como aprendi pra Vida, com Domenico de Masi (Ócio Criativo) e Içami Tiba (Quem ama Cuida). Aos 28, casada, com 2 filhos, e estabilizada profissionalmente, retorno à Univerdidade, desta vez para fazer o sonhado Direito, foram 7 semestres de amadurecimento profissional, intelectual e crise no casamento. Aos 34, separação nada amigável e perda de meu avô – meu grande inspirador ao amor por livros. Foi a época de aprender na dor sobre “Perdas Necessárias” de Lygia Fagundes Telles, bem como me livrar do avatar de mulher-posse em relacionamentos afetivos. O autor Eduardo Nunes – aparentemente controverso – me lembrou do óbvio esquecido: No jogo da conquista (e do Amor) mulher e homem não tem que ser oponentes – mas jogar em time!
Interrompi 2 graduações, por razões que nenhum formulário contempla: orçamento curto, gravidez, separação penosa. Mas nada disso impediu minha curiosidade; só interrompeu rituais.
2. Do sistema financeiro ao social, ambiental e cultural: a síntese de um percurso humanista
Aos 36 anos, descobri que o amor existe e vive na Alemanha. Em 2 anos casei e mudei com meus pequenos de 10 e 11 anos para Munique.
Ao migrar, recomecei do zero e sondei como nunca a psicologia fina do comportamento humano: aprendi meu terceiro idioma, ingressei no setor social acompanhando idosos e pessoas em fragilidade, atuei com sustentabilidade vendendo produtos veganos, Cursei Gestão Ambiental — que, para minha surpresa, não abriu portas. Minhas fontes de saber desta fase: Homo Sapiens, Homo Deus, Nexus(todos de Yuval Harari), Sociedade do Cansaço, da Transparência, Psicopolítica (de Byung Chul Han), Povo Poder e Lucro (Joseph Stiglitz) e Animal Social (Elliot Aronso), entre outros.
Depois, quase por acaso, entrei no campo cultural, onde aprendi sobre imaginação, encantamento e o lugar simbólico do sonho na experiência humana.
Em todas essas áreas — tão diferentes entre si — mantive um fio condutor: gente.
E um compromisso: cuidar sem domesticar, compreender sem dominar, aprender sem buscar trono.
3. O episódio do MBA em ESG: um divisor de águas
Em 2023, rendida ao Paper Ceiling – essa barreira intransponível imposta a trabalhadores sem diploma universitário, mas, com competência real —pleiteei matrículka no MBA em ESG promovido pela Exame/Ibmec.
Fui sumariamente invalidada: não pela minha capacidade, mas pelo filtro meritocrático formalista, vulgo diploma.
Semanas depois desse episódio doloroso, percebi através das newsletters e abordagens da equipe e marketing e vendas: aquele curso tinha mais compromisso com o capital do que com qualquer promessa de transformação. Era ESG como produto, não como ética. Sem querer, escapei de pagar caro por um diploma em greenwashing!
4. O poder do autodidata: aprender como forma de liberdade
O autodidata não estuda para ascender, mas para compreender.
Não precisa de moldura; precisa de mundo.
Aprende para manter-se lúcido, não para colecionar títulos.
Enxerga o trono — mas não o deseja.
Ao contrário da educação domesticadora, o autodidatismo permite acessar saberes que escapam ao controle institucional:
a crítica, a curiosidade indomável, a capacidade de fazer perguntas que não cabem no currículo.
Nos últimos cinco anos, essa vocação encontrou casa no ICL.
Cursos como Agroecologia, Histórias da Terra e Empreendedor Mestre foram transformadores — não apenas em conteúdo, mas em postura diante do mundo.
5. Meu trabalho atual: acompanhar sonhos
Hoje, atuo em um campo que toca o mais profundo da condição humana:
os sonhos. A imaginação. O poder de projetar futuros mesmo quando a vida concreta estreita nosso horizonte.
Trabalho diariamente com esperança — essa matéria-prima raríssima em tempos sombrios. E percebo, cada vez mais, que entender o humano é inseparável de cuidar dele. Nesse sentido, a Teoria Crítica da Sociedade não é apenas um curso que desejo fazer. É o território natural onde minhas reflexões e vivências finalmente se encontram.
6. Reconhecimento institucional de trajetórias não-lineares mundo à fora
mostram que existe — sim— alguma disponibilidade institucional em reconhecer competência além da formalidade. Eles seguem a lógica da competência real, experiência e habilidades, ao invés de depender exclusivamente do diploma (ainda que, pra esses programas excepcionais exija-se avaliação de experiência profissional, portfólio ou exame adicional). Pesquisei exemplos:
Munich Business School (Alemanha)
Oferece a opção de “Master without Bachelor”: mestrados ou MBAs para profissionais experientes, sem necessitar bacharelado tradicional — desde que se cumpra exame de admissão/avaliação de aptidão. Munich Business School
Programas de mestrado com “pre-master / bridging” em universidades dos Países Baixos (e.g. University of Twente)
Permitem estudantes com formação não ideal (= bacharelado em área diferente ou de universidade aplicada) ingressar via pre-master, para depois avançar ao mestrado regular. Universiteit Twente+1
Programas de mestrados profissionais / “executive / advanced studies” (tipo Master of Advanced Studies)
Em diversos países (ex: Suíça, Áustria, Europa Francófona) esses “MAS / MAS-equivalentes” são pensados para profissionais com experiência — às vezes reconhecendo competência prática como critério de admissão, mais do que o histórico acadêmico tradicional. Wikipedia+1
Algumas “Universities of Applied Sciences / Private Universities / Ensino a distância” que admitem “lateral entries” ou “carreiras atípicas”
Dependendo da área e do programa, aceitam candidatos com experiência profissional ou formações alternativas — ainda que exijam exames de admissão, portfólio ou módulos preparatórios. Munich Business School+1
Várias universidades na Alemanha e na Europa (sob o regime legal de “Master without Bachelor”)
Em campos aplicados — negócios, gestão, tecnologia, etc. — já existe uma tradição de oferecer pós a quem demonstre experiência ou impacto prático, não apenas diploma acadêmico, o que expande a noção tradicional de “mérito formal” . Universitaet.com+1
No Brasil
Embora o requisito fundamental continue sendo: ter concluído um ciclo de graduação formal (ou equivalente reconhecido), diplomas de tecnólogo/licenciatura já são aceitos como graduação válida em mestrados, inclusive stricto sensu. Educa Mais Brasil+2ANPG
Seja sob nome de recognition of prior learning ou Notório Saber, tanto Portugal (ISCTE/ ESCS – Escola Superior de Comunicação Social) admite profissionais em mestrados por reconhecimento de competências; como Brasil (UFMG, UFSB e UFC) democratiza o acesso ao saber reconhecendo competências nascidas na prática e na vivência. Porque educação avançada não precisa ser sinônimo de pedigree acadêmico — pode ser também reconhecimento de trajetória, vivência, consciência social e compromisso com transformação.