“Quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro”?
O autor da frase é desconhecido — o problema, não… A exaustão do nosso tempo, o esforço de produtividade crescente na ilusão de alcançar a vida que precisamos.
Assumir mais responsabilidades, trabalhar mais horas, esperar uma contrapartida condizente? Esqueça. Não vem.
Dias atrás, conversando com a vizinha sobre isso, ela foi categórica:
“Aqui (na Alemanha) aumento de salário não pedido jamais será dado.“ Aumentar a carga de responsabilidades e acúmulo de funções, no entanto, é garantido! E a lisonja de “merecer a confiança” tacitamente basta, numa frequência assustadora…
É a normalização da escassez, no melhor estilo neoliberal: nos aprisionar na paranoia de que “fazer mais, em algum momento, trará mais”.
Mas, como disse a vizinha – e minhas já quatro experiências de trabalho em Munique – a promessa invisível de recompensa não vira resultado concreto. Então vem desgaste financeiro, seguido do moral — até culminar no psicológico.
Se isso transparecer, vem o rótulo: “Temperamental”; “Difícil”; “Complicada/o.”
Pronto! Foco deslocado da causa para o efeito.
Não se discute mais o problema — discute-se a pessoa que colapsa dentro dele.
A lógica do “(sempre)mais por (cada vez)menos” ultrapassou o desperdício de produtos e alcançou a descartabilidade das pessoas.
🚮“Não gostou? Pode ir embora.”
A frase-ameaça — dita nas relações pessoais, no trabalho, nos vínculos mais diversos — não é só preguiçosa. É um dispositivo de poder.
A ironia é brutal: quem a pronuncia, tenta deslegitimar quem está em posição mais frágil — como se a capacidade relacional fosse um privilégio de quem pode descartar, e não de quem sustenta.
🔧 Vida se reduz à Pausa do trabalho?
A versão cotidiana do antigo mecanismo — extrair o máximo, compensando o mínimo – não é exceção. É rotina. O que há de novo — e talvez mais perverso é que essa instrumentalização das pessoas já nem precisa ser imposta de fora. A Sociedade do Cansaço, brilhantemente explicada por Byung Chul Han, passou a se auto explorar, acreditando que está escolhendo.
Ser produtivo por 8-10-12 horas por dia empobrece a Vida. E pior, sem contrapartida financeira! — Afinal, o valor da hora trabalhada é uma precariedade persistente.
hora trabalhada ≠ hora vivida
Gente precisa viver relações desinteressadas, de conexão autêntica entre pessoas, que pressupõem tempo pra escutar e ser escutado, com apreciação; sem pressa, nem pressão por resultado. Isso sim é construtivo do ser…
Reestabelecer limites não é fácil. E quem disse que evitá-lo é?!
Para mim, por exemplo, custou dias numa crise de existência, até decidir, hoje, tomar uma atitude e pedir redução da jornada de 40 pra 30horas semanais.
…MAS MESMO SEM SABER DIREITO COMO VOU HONRAR DESPESAS FIXAS DO PRÓXIMO MÊS, FORMALIZEI O PEDIDO E FUI ATENDIDA. Mais leve, sentei para escrever — para organizar o caos, abrir caminho para uma nova renda e, quem sabe, acender uma faísca de lucidez em quem já começa a aceitar que não há o que fazer.
Healthy is the new rich
O óbvio que somos levados a “esquecer”: Trabalhar não precisa ser sinônimo de sobreviver no mínimo. Rejeitar jornadas estafantes não muda o sistema — mas interrompe, um indivíduo por vez, a lógica da wage slavery.
E, de repente(pelo menos é assim que sinto agora), Dignidade, Saúde e Vida deixam de ser luxo e voltam a ser base.
… Porque em tempos exaustos, quem (man)tem saúde já é abundante.