Quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro
A frase é de autor desconhecido — mas tão universal… Ela sintetiza a exaustão do nosso tempo, na ilusão de que o esforço crescente trará a dignidade de vida que precisamos. Não traz.
Não é preguiça. É aritmética.
Meu salário líquido de 2.300€ cobre meu aluguel (1.400€) e deixa 900€ para alimentação, plano de saúde, transporte, internet e higiene pessoal de uma família de quatro pessoas.
Nossos filhos(18 e 19) trabalham a 15€/hora para garantir os próprios custos com vestuário e gastos pessoais com estudo, tecnologia. Lazer? Luxo….
Meu marido, autônomo, engajado em três contratos de efetividade esporádica, vê cerca de 40% dos também parcos ganhos desaparecerem em impostos — mas são os milionários os grandes sofredores por pagar 3%! Mas lobby político e manutenção do arrocho de classe é assunto pra outro post.
Assumir mais responsabilidades, trabalhar mais horas, esperar uma contrapartida condizente? Esqueça. Não vem.
Dias atrás, conversando com a vizinha sobre isso, ela foi categórica:
“Aumento de salário não pedido jamais será dado.“
É a normalização da escassez, no melhor estilo neoliberal: nos aprisionar na paranoia de que “fazer mais, em algum momento, trará mais”.
Mas, como disse a vizinha – e minha já quarta experiência de trabalho em Munique – a promessa invisível de recompensa não vira resultado concreto. Então vem desgaste financeiro, seguido do moral — até culminar no psicológico.
E quando alguém ousa reagir? Vem o rótulo.
“Temperamental.”
“Difícil.” “Complicada.”
O foco se desloca da causa para o efeito.
Não se discute mais a estrutura — discute-se a pessoa que colapsa dentro dela.
A lógica do “mais por menos” ultrapassou o desperdício de produtos e se agravou para a descartabilidade das pessoas.
“Não gostou? Pode ir embora.”
A frase-ameaça — dita no trabalho, nas relações, nos vínculos mais diversos — não é só uma saída. É um dispositivo de poder.
A ironia é brutal: quem a pronuncia, o faz tentando deslegitimar justamente quem está em posição mais frágil — como se a capacidade relacional fosse um privilégio de quem pode descartar, e não de quem sustenta.
👉 A instrumentalização da vida
Isso não é exceção. É rotina.
Uma versão cotidiana de um mecanismo antigo: extrair o máximo, devolver o mínimo.
Mas há algo novo — e talvez mais perverso.
Essa lógica já nem precisa ser imposta de fora.
Já foi internalizada e passamos a nos autoexplorar, acreditando que estamos escolhendo.
Daí a confundirmos objeção com fracasso pessoal é um pulo.
E, pouco a pouco, deixamos de enxergar a pessoa por trás do papel que ela exerce — como se a vida pudesse caber em uma única faceta. Só não cabe. Porque precisamos viver relações desinteressadas e construtivas do ser; fora do eixo toma-lá-dá-cá.
Reestabelecer limites, por isso, não é fácil. E quem disse que evitá-lo é?!
Para mim, por exemplo, custou uma crise de existência, por dias, até decidir, hoje, tomar uma atitude.
Curiosamente, logo depois de tomá-la — estando emocionalmente mais leve — que consegui sentar e escrever estas linhas… Quando o único gesto de lucidez que resta é colocar o SEU limite, que seja!
Precisamos ousar.
Buscar e defender soluções individuais — sim.
Intencionalmente ou não isso se reflete no mundo onde relações tóxicas de trabalho perdem espaço para as que respeitem Dignidade, Saúde e Vida .
Porque trabalhar mais não precisa ser sinônimo de sobreviver no mínimo. Se o sistema não faz a autocrítica, façamo-la nós mesmos.
Agindo.