⚡ Capitalismo de Plataforma e a Razão que se Voltou Contra Si Mesma
A gente adora dizer que age com a razão, muito embora na maioria das vezes nem seja… Sabe de onde isso vem? Do Iluminismo – sec dezoito! Na escola insossamente apresentado como um período histórico — iluminismo foi na verdade um programa filosófico e político que prometeu:
“Libertar o ser humano pela razão, fazendo bom uso dela” . Sair da incapacidade de pensar por si mesmo e alcançar a autonomia intelectual e moral. Sapere aude! — “Ousa saber!”
Mas aí começa o paradoxo histórico que vai nos perseguir até o scroll infinito do TikTok.
Da Promessa… À entrega
A “Era da Razão” prometeu mais tempo livre por meio da racionalidade e da técnica. A automação liberaria o humano para o ócio criativo, para a cultura, para a política. Marx chegou a calcular que o socialismo permitiria “caçar de manhã, pescar à tarde e criticar após o jantar”.
Depois que o Iluminismo adota o racionalismo como panaceia da libertação, vem o capitalismo e transforma essa a razão num instrumento de dominação. Márcia Tiburi (Pensadora ativista das boas no Brasil) explica o porque:
- “A razão instrumental é a razão do cálculo…“
- “Nessa função, ela autoriza qualquer um pode ser antiético…“(El*n M*usk manda lembranças!)
Então a razão que deveria libertar é capturada e transformada em pura eficiência técnica sem fins éticos. A pergunta deixou de ser “para que serve?” e virou apenas “como funciona melhor?”
O Capitalismo de Vigilância
Eis que o salto histórico mais vertiginoso. Horkheimer escreveu isso nos anos 1940. Mas olha onde chegamos:
No Capitalismo de Vigilância as plataformas digitais são a forma mais acabada da razão instrumental: As plataformas querem nossos dados. Então você nem eu pagamos para estar nelas. Afinal, aos (bi)milhões de usuários, somos nós o produto!
A lógica é perfeita do ponto de vista da razão instrumental:
Comportamento humano
↓
Capturado como dado
↓
Processado por algoritmos
↓
Transformado em produto
↓
Vendido para modificar comportamento futuro
Não é acidente. É o programa do Iluminismo invertido: em vez de a razão servir à autonomia humana, a razão técnica (algoritmo) usa o humano como matéria-prima.
Alienação Tecnológica — Quem Roubou nosso Tempo?
De Marcuse ao Celular já se sabe: A tecnologia, a ciência e a lógica são instrumentos usados pra provocar a alienação do ser humano. Como?
A técnica domina o trabalho e coloniza o desejo. Cria “necessidades falsas” — a compulsão de checar notificações, o medo de perder algo (FOMO), a necessidade de validação por likes.
O Paradoxo Temporal —
A razão instrumental foi tornada Totalitária não só no sentido político — mas no sentido de que não há exterior: o capitalismo de plataforma penetra o sono (notificações noturnas), o lazer (streaming), as relações afetivas (apps de relacionamento), o luto (grupos de WhatsApp), a espiritualidade (igrejas online).
A Nova Menoridade
Kant definiu uma vez a menoridade como a incapacidade de usar o próprio entendimento sem a tutela de outro.
E quando esse “outro” é invisível, impessoal e onipresente? Se é um algoritmo de recomendação que decide o que lemos, o que sentimos, o que desejamos, e quem nos se irrita…
A nova menoridade não precisa de um rei ou de uma Igreja. Ela está se instalando na nossa intuição interna — exatamente onde Kant localizou o tempo.
O algoritmo não controla o que eu e você pensamos: ele controla quando e como pensamos, fragmentando a atenção, acelerando o tempo, tornando impossível a reflexão “demorada” e sustentada.
💡 A ironia histórica máxima: Kant disse que a saída da menoridade exige coragem (Mut) — “Ousa saber!” Mas o capitalismo de plataforma tornou o ato de pensar um luxo de classe: quem tem tempo e condições de se desconectar e refletir? Quem pode se dar ao luxo de não estar disponível 24h?
🔗 Resumo da Ópera
KANT diz no séc. XVIII:
"Use sua razão — saia da menoridade!"
↓
Do ILUMINISMO ao CAPITALISMO INDUSTRIAL:
A razão vira instrumento de dominação
↓
No séc. XX a teoria crítica alemã denuncia:
"A razão instrumental traiu o projeto emancipatório"
↓
Em pleno séc. XXI o CAPITALISMO DE PLATAFORMA:
O algoritmo (vulgo razão técnica) coloniza nosso tempo interior e a regredimos à segunda menoridade: invisível, voluntária e "prazerosa"
↓
As MULTICRISES nos ameaçam como indivíduos e espécie:
Guerras, colapso climático, governos autocráticos, perecimento social—
mas a atenção está no scroll, na nova série do stream...
🧭 O que isso nos pede?
Se Kant pediu Sapere aude! — “Ousa saber!” — Eu diria que o imperativo do nosso tempo é outro:
“Ousa estar presente.”
Naturalconnected!
“Ousa ter tempo.”
“Ousa desconectar para poder conectar — com o mundo real, com as crises reais, com os outros reais.”
Isso não é romantismo anti-tecnológico. É simplesmente reconhecer o engajamento coletivo que as multicrises exigem. Pra isso recuperemos o tempo como espaço de reflexão, afeto e ação (inclusive) política.